domingo, 17 de janeiro de 2010

Os Surpreendentes Contratenores

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INTRODUÇÃO

 Até o período barroco as mulheres eram proibidas de cantar nas igrejas, então as vozes femininas eram interpretadas por meninos. Conforme cresciam, a natureza (hormônios) modificava suas vozes deixando-as mais graves, obrigando os padres músicos a treinar novas crianças, o que era muito trabalhoso além de perderem verdadeiros talentos para a puberdade.

Para evitar esses problemas, foi instituída a cruel prática da castração dos jovens talentos para que não mudassem de voz. Assim surgiram os castratti.

Tempos depois esta prática foi abolida e a necessidade fez com que fossem desenvolvidas técnicas artificiais e não mutiladoras para manter o canto masculino afeminado.

Estes que utilizam destas técnicas são conhecidos até hoje por CONTRATENORES.

O CONTRATENOR

Texto extraído da revista Classic CD nº 21

deller[1]

No princípio era Alfred Deller (foto) continuou a ser a primeira palavra em contratenores durante anos, depois de ter sido “descoberto” por Michael Tippett e Walter Goehr no início dos anos 40. Embora outros, como o estadunidense Russell Oberlin, tenham participado do destaque dado à voz do contratenor durante o renascimento da música antiga no pós-guerra, foi o som inconfundivelmente puro e a enorme musicalidade de Deller que estabeleceram os padrões para a avaliação das futuras gerações de contratenores.

Antes de Deller deixar o coro da catedral da Cantuária para seguir uma bem-sucedida carreira como solista, a voz masculina em falsete era mais associada ao teatro de comédias que à sala de concertos. Constant Lambert empregou um contratenor de voz pouco potente na gravação de 1930 de sua obra “The Rio Grande”, uma das poucas oportunidades de solo na época imediatamente anterior a Deller. Embora os frequentadores de concertos raramente ouvissem esse tipo de voz, as congregações anglicanas estavam bem familiarizadas com seu timbre agudo e um tanto sobrenatural. Na Inglaterra, os coros de catedrais e faculdades eram santuários dos membros do clube dos contratenores, preservando uma tradição da voz em falsete que parece ter-se mantido ininterrupta, e talvez necessariamente inalterada, dos fins da Idade Média ao século XX.

O talento excepcional de Alfred Deller ajudou a estabelecer a vobowman[1]z do contratenor para além dos limites da catedral, atraindo o interesse e o apoio de compositores como Tippett e Benjamin Britten, que escreveram uma nova música, desafiadora e significativa, para um tipo de voz que já fora considerado arcaico. Jovens cantores eventualmente seguiram os passos de Deller, como James Bowman (foto) formando-se no Coro do New College, Oxford, para se tornar um dos melhores (e mais duradouros) contratenores.

O generoso incentivo oferecido por Bowman aos cantores mais jovens ajudou a multiplicar o número de contratenores britânicos de primeira linha, com o trabalho didáditico do belga René Jacobs inspirando bons cantores em outras partes da Europa. Nesse ínterim, as oportunidades de trabalho foram-se multiplicando, juntamente com o crescente número de grupos de música antiga e a correspondente demanda de cantores que pudessem interpretar os agudos e desafiadores papéis operísticos originalmente escritos para os castrattis.

Como os instrumentos cirúrgicos não mais podem ser aplicados para preservar a voz masculina anterior à puberdade, como é possível que os bons contratenores consigam competir com os contraltos femininos e atingir notas muito acima do alcance confortável de simples mortais com voz de tenor e barítono? Em poucas palavras, o som do contratenor é obtido pelo cantor usando apenas parte de suas cordas vocais (sic – o nome correto é pregas vocais), para gerar o que é conhecido como voz de cabeça, uma técnica artificial que empresta uma qualidade “falsa” e aguda à voz do homem adulto.

Exames radiográficos e estroboscópios mostram que o contratenor não é um capricho da natureza; em vez disso, ele desenvolve e aperfeiçoa a facilidade de criar sons em falsete por meio de uma prética acessível a quase todos os homens adultos.

Embora Deller e outros contratenores pioneiros fossem, em boa parte, autodidatas, seus sucessores mais recentes beneficiaram-se da experiência coletiva e da assistência de artistas do calibre de James Bowman, Jacobs, Paul Esswood, Christopher Robson e Michael Chance. Uma grande discografia abrangendo execuções boas, ruins e indiferentes de contratenores desenvolveu-se durante os últimos 80 anos, durante os quais a voz deixou de interessar como novidade para evoluir para uma parte aceita e até indispensável da vida musical moderna.

 

Os Melhores da Atualidade

 

blazehighres[1] Derek Lee Ragin Derek_Lee_Ragin[1] Michael_Chance[1] minter[1] photo_home[1]

andreas-scholl[1]

Na ordem: Robin Blaze, Derek Lee Ragin, Michael Chance, Drew Minter e Brian Asawa.

Destaque: Andreas Scholl

AUDIÇÃO COMENTADA

Andreas Scholl interpreta de J. S. Bach – Winderstehe doch der Sünde

Depois de quase seis anos a serviço do duque de Weimar, Bach foi promovido ao cargo de Konzertmeinster. Ele agora devia produzir para a boa orquestra de seu patrão e escrever uma cantata por mês para a capela particular do duque.

Winderstehe doch der Sünde, BWV 54, que pode datar de março de 1714, tem um texto em três partes da autoria de G. C. Lehms, poeta da corte de Damstadt. Bach havia recentemente explorado novas formas e técnicas musicais provenientes da Itália, especialmente as que contrastavam um grupo de instrumentos com um solista. A sequência à italiana de dissonâncias nas cordas durante o início da cantata BWV 54 representa os pecados do mundo que, como deixa clara a eloquente e decidida prece de Scholl 00:44, devem ser rechaçados 00:57, a menos que seu veneno se apodere de nós.

02:57 – Não deixe que Satã o engane; 03:01 – pois sobre aquele que profanar a honra de Deus 03:05 – recairá um castigo mortal. Bach apresenta o texto completo mais uma vez 03:55 , em uma repetição sublime e ligeiramente modificada da parte inicial da ária.

´té mais!

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei os exemplos! Só achei falta do Yoshikazu Mera, grande contratenor japonês, dono de timbre inconfundível e brilhante, grande clareza na emissão das notas e diccção, grande voz, e do francês Philippe Jaroussky, dono de voz ágil e com timbre memorável. Ótima publicação.

Rodrigo Nogueira disse...

Obrigado! Pelos elogios e dicas!
Abç!

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