1998
Paco de Lucía é um dos maiores mestres do violão. Seu trabalho como compositor e intérprete é reconhecido em todo o mundo. Aprendeu a tocar o instrumento com seu pai dentro da tradição cigana e contribuiu enormemente para o desenvolvimento do flamenco, trazendo uma visão moderna para esse estilo musical.
Luzia é um dos trabalhos mais sensíveis e artísticos do artista espanhol. Leia abaixo o que diz o crítico musical especializado em flamenco, Félix Grande, sobre esse disco e sua comparação com o álbum anterior, Sirocco. O texto está encartado no CD e a tradução é livre.
Cada gravação de Paco de Lucía é um acontecimento por si só. Cada novo projeto é uma surpresa. E este é algo mais: Luzia é inacreditável; deixa-nos esgotados e espantados. Todos têm limitações, até os gênios. Por anos pensei que o gênio de Paco de Lucía havia atingido seu máximo com o álbum Sirocco. Não foi assim. Em Luzia, as músicas são mais profundas, mais expressivas e muito mais flamencas nessa gravação memorável. Sirocco foi o trabalho de um artista tempestuoso; Luzia é o trabalho de um artista com pleno comando do poder da serenidade, solidão e tristeza. Sirocco nos levou a alegria e lágrimas; Luzia nos mostrou como descobrir tristeza na alegria, e nos ensinou o conforto das lágrimas. Sirocco foi composto por um mestre da criatividade no flamenco; Luzia foi escrito por um ser humano ciente de sua mortalidade; Em Sirocco a música estabelecia um diálogo com a história da Andaluzia; em Luzia há também um diálogo com o terror do nosso tempo de vida finito. Sirocco é um tour de force. Luzia é a culminação. Na gravação de 1981, Solo Quiero Caminar, havia uma faixa, Montiño, onde uma silenciosa aliança foi estabelecida entre o som, ritmo e o mistério, uma espécie de confissão, onde a música tinha o peso pesado da levitação; emoção que sutilmente nos moveu em Sirocco; Em Luzia esta gramática emocional tornou-se a regra predominante.
A técnica de Paco de Lucía ainda é surpreendente, mas se comunica com intimidade pura agora. Sua habilidade cresceu para dentro; ela não apenas engrandece o próprio artista, mas sim evoca emoções radicais. A técnica de Paco de Lucía talvez possa ter parecido arrogante no passado; em Luzia ele se tornou nosso irmão. Sua técnica prodigiosa não pretende mais surpreender; ela tem uma meta ainda mais ambiciosa: nos conduzir pela mão ao âmago do flamenco, e para o âmago de nossas próprias vidas. Na outra gravação de Paco de Lucía nós compartilhamos uma celebração; agora nós assistimos uma cerimônia. Fomos enriquecidos. Estamos habituados a ouvir sua música a partir da incerteza da nossa curta e fugaz vida; em Luzia ouvimos a música flamenca do reino enigmático dos nossos antepassados. Esta gravação nos ajuda a rememorar e se apossar de nossa antiga história. E, portanto, torná-la mais duradoura.
Agora a arquitetura harmônica não é apenas rica; está determinada a ser essencial, as harmonias não estão meramente conectadas às melodias. Elas estão intrinsicamente ligadas para gerar densidades adicionais. As escalas não seguem as tonalidades comuns, elas transbordam no fraseado; não é exibicionismo, é mais uma prestação de serviço. Seus acordes, que costumam ser a prova da incrível destreza de sua mão esquerda, agora refletem as ansiedades da música, os símbolos de um flamenco erótico. E quanto ao ritmo, espinha-dorsal de sua música, nessa gravação é mais do que um suporte estrutural: é um ritmo que conduz a música do passado para o futuro. Paco de Lucía vivia para seu ritmo, agora o ritmo vive nele: Luzia, música escrita com incendiária coerência, não é apenas o máximo da técnica do flamenco; é um marco na história da música contemporânea. Finalmente: Luzia é também absolutamente um gesto típico do povo flamenco realizado por Paco de Lucía: é um tributo feito para sua mãe.Depois das grandes palavras escritas por este profundo conhecedor da música flamenca, o que mais eu poderia dizer? Apenas desejo que o caro leitor aproveite ao máximo esta obra suprema do mestre Paco de Lucía!
Ouça aqui o disco completo!


























