10 - Obra-prima 9 - Excelente 8 - Muito bom 7 - Bom 6 - Bom, mas recomendado com reservas 5 - Razoável 4 - Mau, mas com alguns méritos 3 - Mau 2 - Muito mau 1 - Horrível 0 - Lixo
Obs: Peguei esta escala de notas da amiga Júnia do blog Vintage
Nos arredores de Manchester, Inglaterra, surge em 1976 The Fall, e desde seu início, a banda mostrou que veio ao mundo para fazer a diferença. Em princípio, seus integrantes eram amigos que se reuniam para rodas de leitura regadas a consumo de drogas. Um dos autores mais apreciados era Albert Camus e graças a um de seus romances, veio o nome da banda.
A origem de seu som sem dúvida é o garage rock e grupos como Velvet Underground, Captain Beefheart e Can. As harmonias de suas músicas são intencionalmente repetitivas e cruas.
O Fall existe até hoje e é recoberto por uma aura cult. Sempre foi underground, apesar de sua estética mudar bastante no decorrer dos anos, sempre incorporando os estilos das épocas. Sua produção discográfica é bem ampla (mais de 25 discos de estúdio e o triplo disso ao vivo).
Mark E. Smith
Diversos músicos passaram pela banda em suas muitas formações, apenas o vocalista Mark E. Smith foi presença constante.
O primeiro show só aconteceu em 1977 e agradou tanto os integrantes do Buzzcocks que eles financiaram a gravação do primeiro EP do Fall com as faixas "Steppin Out" e "Last Orders". A gravadora não liberou o lançamento e essas músicas acabaram incluídas em uma compilação de bandas chamada "Short Circuit: Live At Electric Circus".
Depois de circularem por diversas casas noturnas e por terem se apresentado em algumas TVs, finalmente conseguiram lançar seu primeiro EP: "Bingo-Master's Break-Out!". O famoso DJ John Peel se interessou pelo grupo e passou a difundir e defender o som dos caras até que, em 1979 sai do forno o primeiro e histórico álbum "Live At The Witch Trials". O lineup era Mark E. Smith (vocais e guitarra eventual), Martin Bramah (guitarra e backing vocals), Mark Riley (baixo), Karl Burns (bateria) e Yvonne Pawlett (teclado). Apesar do nome, o disco não foi gravado ao vivo, mas sim no estúdio e demorou apenas um dia para ficar pronto. A crítica especializada ficou dividida ao avaliá-lo. Houve recepções entusiasmadas de alguns e céticas de outros.
Depois de seu lançamento, quase todos os integrantes abandonaram o grupo, restaram apenas Smith e Riley. Os dois arregimentaram novos músicos e, no mesmo ano de 1979, lançariam o segundo álbum: "Dragnet", mas isso é história para outro artigo.
Mesmo durante as gravações já houve mudança dos integrantes da banda.
As letras são em geral críticas duras a vários segmentos da sociedade, inclusive à indústria fonográfica. O som mostra claramente as limitações musicais dos integrantes, mas são compensadas com vibração, humor e inteligência.
É uma compilação das músicas que mais agradavam aos fãs nos shows.
Audição comentada
Meus destaques em vermelho
01 - Frightened
Uma passagem de bateria e um doce teclado abrem o álbum. Na sequência, a guitarra fora de tom é incorporada e o vocal começa de forma declamatória. A guitarra trás certa dose de tensão em cima de arranjo tranquilo e repetitivo.
02 - Crap Rap 2/Like To Blow
A guitarra acelera o ritmo e a bateria faz diversas passagens pelos tons e surdo, enquanto o canto faz o famoso rap do título. A bateria indica a mudança do andamento. O teclado econômico, apenas mostra algumas notas isoladas. O baixo preenche os vazios da música.
03 - Rebellious Juke Box
O arranjo trafega nos limites da tonalidade o que trás um certo desconforto para ouvir. O baixo fica sempre na descendente enquanto que a guitarra figura pelo ritmo. Criativa.
04 - No Xmas For John Quays
O teclado faz um fraseado quase infantil como introdução. Depois a música acelera com a guitarra mantendo sempre dois acordes, enquanto a bateria desce a lenha. O canto encontra-se quase sempre fora da escala.
05 - Mother-Sister!
Os três acordes no teclado são imitados pelo baixo que acrescenta mais um. A guitarra começa em contratempo e depois faz variações do tema. O refrão chega e o andamento é acelerado.
06 - Industrial Estate
Acordes dissonantes na guitarra, o teclado mantém uma nota no início de cada compasso.
07 - Underground Medicine
Canto dobrado com o baixo marcando ao fundo. A guitarra se apresenta acompanhada do teclado. Muito legal a parceria da guitarra com o baixo!
08 - Two Steps Back
A guitarra começa sozinha e logo o baixo vai buscá-la. O teclado se apresenta. A bateria se destaca com boas passagens quebradas.
09 - Live At The Witch Trials
Aparentemente, apenas passagem de som.
10 - Futures And Pasts
Quatro animados acordes. Mais próximo de um punk típico.
11 - Music Scene
Repetitiva, longa e monótona.
Texto: Rodrigo Nogueira
Fonte: Wikipedia
Curiosidades: 1001 discos para ouvir antes de morrer
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The Residents é um grupo de vanguarda e arte visual. Eles iniciaram seus trabalhos no início da década de 70 e são conhecidos por sua música excêntrica e pelas personalidades misteriosas de seus membros.
Eles têm mais de trinta anos de carreira e semprem mantiveram suas vidas privadas na obscuridade. Os membros da banda não dão entrevistas e NUNCA EXPUSERAM SUAS IDENTIDADES, nem mesmo por pseudônimos! Nos shows e nas fotos promocionais estão sempre disfarçados. O disfarce mais típico consiste em smokings, cartolas e máscaras de globos oculares (veja foto acima).
Eles optaram por ser assim porque pensam que “o artista produz seu trabalho da melhor forma possível sem a influência de uma audiência, e que ele deve ser julgado apenas por seu trabalho e não por seu gênero, etnia e, principalmente, por sua vida cotidiana”. Essa atitude vem da teoria da obscuridade de N. Senada, uma figura misteriosa que os Residents idolatram.
Muitos rumores surgiram ao longo dos anos sobre a identidade dos artistas. Alguns apontam que eles são deformados, outros afirmam que são músicos conhecidos que querem manter anonimato ao fazer experimentos musicais que poderiam desvirtuar suas carreiras. Há ainda quem afirme que eles são, na verdade, OS BEATLES!!
Diante de tantos segredos, é praticamente impossível dar um histórico completo do grupo. Sobre o nome da banda, soube-se que em 1971, eles levaram uma fita demo gravado com equipamento precário para um empresário da Warner que vetou o projeto e, como não havia o nome do remetente, a fita foi enviada de volta ao endereço com a inscrição “Aos cuidados dos residentes” .
Em 1973, foi produzida o primeiro disco “profissional”, num gravador de 4 canais em mono: Meet The Residents (foto acima). Daí a mitologia com os Beatles.
A banda lançou vários projetos musicais, todos no underground e todos excêntricos. Também tentaram produzir filmes surreais. Sua carreira dura até hoje. Em 2006, a banda lançou via Internet uma mini-série de cinco episódios chamada River of Crime (confira um trechinho abaixo). Seguindo o sucesso deste, os Residents lançaram uma série semanal chamada Timmy (confira um trechinho abaixo), exibida no youTube.
É uma compilação de dois EPs: Duck Stab e Buster & Glen
Representou a evolução e a emergência do fantástico e sonoro mundo bizarro
Traz cânticos, vocais agudos, tons de comédia e efeitos especiais
OUÇA AS FAIXAS E LEIA OS COMENTÁRIOS:
DESTAQUES EM VERMELHO
Observação: Geralmente comento todas as faixas dos álbuns analisados, mas desta vez peço licença aos leitores, pois não farei.
Não farei porque não se trata de um álbum convencional, e sim uma experiência sonora, e como tal, cada um deve ter sua percepção individual e reagir de acordo com sua “bagagem” cultural.
Pelo mesmo motivo não destacarei nenhuma faixa. Este é o tipo do trabalho que ou se ama ou se odeia. É praticamente impossível passar indiferente por ele.
Inicialmente, a banda misturava experimentalismo, cacofonia, barulho, jazz, rock, soul e minimalismo, e acabou sendo um dos pioneiros e fundadores do chamado “som industrial”.
O objetivo do grupo era mostrar o lado caótico do mundo, do homem em meio ao holocausto industrializado, seus medos, rancores, paranóias, toda a convulsão social e toda a hipocrisia da modernidade. Para isso, criavam “músicas-pesadelo”, que eram desconcertantes e pouco melodiosas. Mesmo assim, as canções eram compostas com muita técnica, precisão e os instruemtos se encaixavam com muita harmonia. Sintetizadores dançantes e riffs energéticos de guitarra se misturavam com técnicas que iam além da base convencional, usando desde ruídos à intervenções de música concreta, criando assim um equilíbrio entre acessibilidade e radicalismo.
A voz desesperada e enlouquecida de David Thomas adicionava uma característica paranóiaca, demente e ao mesmo tempo cômica na banda, uma vez que ele cantava de diversas formas diferentes, explorando e experimentando características vocais (afinadas ou não) e até formas inovadoras de cantar ou falar ao microfone, durante uma gravação. Ele saltava, por exemplo, as oitavas no transcorrer das músicas, indo do grave ao agudo em segundos e, assim, adicionando microtons de forma a oscilar inclusive na definição das notas.
O grupo define seu estilo como “hard rock proto-punk”
Os títulos das faixas são inspirados em filmes, canções e slogans do passado
OUÇA AS FAIXAS E LEIA OS COMENTÁRIOS:
DESTAQUES EM VERMELHO
01 – Navvy
Começa com acordes de guitarra no canal da esquerda, logo entram notas de outra guitarra no canal da direita. Também entra o som caótico do que parece uma sobrecarga de energia. O vocal alucinante e a bateria marcada são incorporados. Escutamos ao longe os backing vocals. 01:31 – a guitarra extrapola alucinante.
02 – On The Surface
Um teclado com som primitivo, efeitos eletrônicos e a voz quase infantil. Surreal!
03 – Dub Housing
Baixo comanda, a guitarra e o piano completam a harmonia e o sax soprano joga notas. A voz entra discursando mas com sonoridade abafada. Muita influência de jazz.
04 – Caligarl’s Mirror
O canto super tremido, um refrão “convencional” e uma harmonia extramamente exótica.
05 – Thriller!
Não! Não é a do Michael Jackson, trata-se de mais uma viagem surreal do Pere Ubu. Perturbador!
06 – I Will Wait
Guitarra e baixo em sintonia. Uma música mais “normal”, lembra remotamente um punk.
07 – Drinking Wine Spodyody
O baixo “caminha”, o teclado é martelado em dissonância total.
08 – Ubu Dance Party
Som de estática, guitarra ao estilo surf music e teclado em contratempo.
09 – Blow Daddy-O
Distorções da guitarra, bateria punk, vozes desencontradas, sons repetitivos
10 – Codex
Guitarra sincopada, vozes em mantra e canto principal descompromissado com o tom. Uso constante de intervalos de segunda e semitonagem. Análise Musical: Rodrigo Nogueira Fonte Histórica: Wikipédia Curiosidades: 1001 discos para ouvir antes de morrer
‘té mais!
Pere Ubu é uma banda de rock experimental vanguardista formada em Cleveland, EUA, em 1975. Ao longo da carreira, teve diversos membros com incontáveis formações, sendo que o vocalista David Thomas é o único constante. O nome da banda vem de Père Ubu (“Pai Ubu”), o protagonista de Ubu Roi (“Ubu, o Rei), uma obra teatral e surrealista do escritor francês Alfred Jarry.
Apesar do Pere Ubu nunca ter sido uma banda popular, eles foram elevados ao título de banda cult após a produção do seu primeiro e mais famoso álbum, The Modern Dance (que analiso neste post).
A partir daí, passaram a ter diversos seguidores devotados, além de influenciar diversas gerações de músicos vanguardistas do mundo inteiro. Críticas e opiniões sobre o Pere Ubu incluem, “A mais original e importante banda da geração new wave”. “A única banda de rock’n’roll expressionista do mundo” e “A banda irmã de Velvet Underground, no sentido de quem ouvir vai amar ou odiar instantaneamente”.
Devido a diversas brigas e desentendimentos, falta de apoio e sucesso restrito, a banda acabou se distanciando após lançarem o álbum dadaísta The Art Of Walking e Song Of The Bailing Man. Eles retornaram, porém, em meados dos anos 90, sendo que com o passar dos anos foram se convertendo sutilmente a uma música de inclinação mais popular, mudança essa que chegou a desagradar alguns fãs mais antigos.
Confira mais sobre Pere Ubu no post do dia 18/01/2010
Mostra a face assustadora do rock absoluto – parece totalmente engajado no gênero e, ao mesmo tempo completamente fora de sua lógica
Esticou os limites do rock para além de qualquer ponto de ruptura, numa configuração única de riffs de rock, musique concrète e estruturas de composição imprevisíveis
Influenciou todo o rock alternativo que veio depois
OUÇA AS FAIXAS E COMPARE COM A ANÁLISE MUSICAL:
DESTAQUES EM VERMELHO
01 – Non-Alignment Pact
00:00 – Cuidado com o volume do rádio! No início da música temos uma nota super aguda martelada na cabeça e quatro notas no baixo; 00:22 – Entra a guitarra e a nota aguda só vai embora em 00:34 – o riff é de 3 acordes ascendentes seguidos de um descendente; 00:45 – o apito retorna ao final das frases do canto, só que não mais de forma contínua; 00:58 – no refrão a nota aguda se tranforma em sons ondulados dando um efeito psicótico; 01:10 – repetição; 01:35 – o instrumental dá uma aliviada, a voz fica em destaque e surgem sons semelhantes a assobios que se apresentam de forma caótica; 01:48 – a bateria ressurge discretamente; 02:02 – novamente o refrão; 02:13 – a guitarra repete rapidamente o mesmo acorde, a nota aguda retorna constante e o baixo vira o destaque, até que novamente escutamos o refrão e após, o final.
02 – The Modern Dance
00:00 – guitarra e baixo na mesma linha 00:06 – entra a bateria e em seguida os vocais brincando de pergunta e resposta; 00:43 – breque e na sequência sons de falas caóticas e música só é identificada pela presença da guitarra; 01:13 – retorna a levada blues e as perguntas e respostas dos vocais; 01:53 – novo breque e as falas caóticas anteriores dão lugar a som de risadas; 02:30 – a guitarra surge totalmente distorcida e na sequência o blues; 03:21 – a cadência capitaneada pelo piano.
03 – Laughing
00:00 – um leve trabalho da guitarra ao fundo e instrumentos de sopro modulando constantemente chamando a atenção; 02:05 – o ritmo acelera e o canto entra tremido, a música é totalmente exótica, mais adiante entram risos, falas, grunhidos e outras loucuras.
04 – Street Waves
Com um riff simples de guitarra, sons fantasmagóricos de ecos ao fundo e o canto estragado dão o tom desta música que já tem um formato mais “normal”.
05 – Chinese Radiation
00:00 – um ameno começo ao violão, o sintetizador aguarda um pouco para entrar com seus efeitos, o vocal parece que erra a entrada, mais vai assim mesmo, depois começa a falar; a música parece que termina, até surgem aplausos, mas não; 01:34 – o negócio acelera, o cantor conduz a platéia a um êxtase cada vez maior; 02:36 – quase silêncio total, o piano dá alguns acordes e os deixa soar, a bateria aparece ainda acelerada e a voz retorna até que é cortada aparentemente no meio da frase. Muito interessante.
06 – Life Stinks
A baixaria abre a música, o vocal entra totalmente “fora da casinha” e a coisa só “piora” com urros e modulações insanas, parece que estão esganando um peru!
07 – Real World
00:00 – silêncio, estática, notas ao acaso do baixo com resposta da guitarra; 00:34 – entra a bateria e o baixo passa a seguir uma linha mais regular; 00:50 – a voz se apresenta mantendo o clima estranho de uma conversa afetada e cheia de sobressaltos, a afinação é discutível e assim a coisa segue até o final.
08 – Over My Head
A gravação apresenta chiados propositais de disco de vinil. Sons agudos que lembram vozes de baleias, guitarra executando harmônicos, voz trêmula e backing vocals. Tudo isso para mostrar um som sombrio. 01:54 – o surdo da bateria soa como em rituais afro e a guitarra faz um pseudo-solo com o uso de distorção.
09 – Sentimental Journey
O Pere Ubu brinca com nossas percepções apresentando uma série de sons não musicais como suspiros, vidro, eletricidade, etc. É perturbador! 02:42 – a bateria entra quebrando tudo em meio ao caos. De novo em 04:15. 04:44 – a voz mantem uma nota grave e no desenrolar, joga palavras aparentemente sem o menor sentido entre si, como se tivesse afazia; e vai ficando cada vez mais exaltado. Ao final, a impressão que temos é que alguém passa a “varrer” a bagunça.
10 – Humor Me
Uma guitarra sincopada e uma bela linha de baixo introduzem, o vocal continua insano e a presença do sintetizador não nos deixa esquecer que estamos diante de uma banda incomum; 01:40 – um solo (?!) de guitarra fora de tom mostra que o som é mesmo uma piada (conforme diz a letra).
Análise Musical: Rodrigo Nogueira Fonte Histórica: Wikipédia Curiosidades: 1001 discos para ouvir antes de morrer
Fui, por seis anos professor de teoria e percepção musical, história da música e saxofone.
Hoje sou administrador de empresa e estudante de filosofia na USP