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domingo, 6 de março de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 1 ...E a música mais revolucionária é...

Igor Stravinsky
Hoje completa-se o ciclo de 50 semanas com 50 artigos justificando quais as 50 obras musicais mais revolucionárias da história. É com muito prazer e satisfação que hoje apresento a música Nº1!!

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Os críticos concordaram que a obra musical mais revolucionária é a arrebatadora Sagração da Primavera. Com uma obra que ainda conserva seu poder de chocar, Stravinsky tornou-se, da noite para o dia, o notório pai da música do século XX. Revisitamos a desastrosa estreia, explicando a enorme fama da Sagração e revelando sua melhor gravação. (Segue o artigo completo da revista Classic CD, escrito pelo crítico Michael Hayes)

  • 1 - A Sagração da Primavera (1913) - Stravinsky
Vaslav Nijinsky
A cena da mais famosa agitação da história da música foi o recém-inaugurado Théâtre des Champs-Elysées de Paris, em 19 de maio de 1913. O programa, composto por quatro obras com os Balés Russos de Serge Diaghilev, incluía três belos e comportados balés: Les Sylphides, Le Spectre de la Rose e um sucesso da temporada anterior, as "Danças polovtsianas" da ópera Príncipe Igor de Borodin. E havia uma nova obra: A Sagração da Primavera, com o subtítulo de "Cenas da Rússia Pagã", com coreografia de Nijinsky, o super-astro em ascenção. O regente era Pierre Monteux; e a música era de Igor Stravinsky, que saíra, nos últimos anos, da obscuridade para a posição de um dos mais famosos jovens compositores da época.


A estranha música da introdução d'A Sagração da Primavera já havia provocado um sussurro de descontentamento por parte da seção mais elegante da plateia. Quando a cortina subiu, para revelar o que Stravinski muitos anos depois descreveu como "um grupo de Lolitas de tranças e pernas tortas saltando para cima e para baixo", o auditório desintegrou-se num semi-caos. Os gritos das ultrajadas damas da sociedade eram acompanhados pelos berros de aprovação dos que assistiam ao concerto em pé, no fundo da plateia. Evidentemente, a maior parte da música não conseguia ser ouvida. Um Stravinsky furioso foi para os bastidores e encontrou Nijinsky em cima de uma cadeira na coxia gritando números para os bailarinos, que tampouco conseguiam ouvir a música.

Stravinsky na polícia
É uma boa história, e realmente aconteceu. Mas, na verdade, não explica o enorme impacto da partitura de Stravinsky sobre a história da música. O tumulto da plateia era uma especialidade parisiense naquela época. (Durante um tumulto similar na estreia francesa das Cinco peças para orquestra de Schoenberg em 1912, ouviu-se uma dama distinta gritar: "É uma desgraça sujeitar viúvas de guerra a uma coisa como esta!") A causa principal do tumulto da primeira noite foi, sem dúvida, a coreografia de Nijinsky que deve ter parecido provocativamente excêntrica na época; execuções posteriores, durante a mesma temporada, tiveram melhor acolhida. E a estreia da Sagração como obra de concerto em Paris no ano seguinte foi um imenso triunfo, com Stravinsky sendo depois carregado nos ombros pelas ruas por exaltados admiradores.

Quase cem anos depois, houve uma redução no impacto do colossal poder rítmico da música, muito reforçado pelo uso de uma poderosa orquestra (madeiras a cinco, oito trompas, cinco trompetes, três trombones, duas tubas, percussão variada e cordas), por Stravinsky. A tendência virtuosística do compositor russo para o ritmo já havia se evidenciado em O Pássaro de Fogo e Petruchka, mas se tratava de um senso rítmico rico e inflamado, embora ainda reconhecido como autêntico ritmo de balé. Como convém ao assunto étnico, não clássico, da Sagração, sua linguagem rítmica era diferente: pesada, inflexível, de pés batidos na terra e subversiva.

O traço realmente notável da partitura, contudo, é como ela consegue seu poder de terremoto. O uso que Stravinsky faz da percussão é bastante restrito, além de uma bateria de tímpanos (em uma complexa execução que exige dois instrumentistas). Em vez dela, ele usa toda a orquestra como uma única unidade percussiva. Enquanto trabalhava na partitura ao piano (como sempre fez), ele descobriu-se explorando o efeito de acordes superpostos em diferentes tonalidades - literalmente, uma tonalidade na mão esquerda e outra na direita.

Ele percebeu que essas combinações de acordes eram unidades de material musical bruto que podiam proporcionar os complexos ritmos irregulares que estava instintivamente buscando. Neste sentido, sua própria versão para dois pianos da Sagração, feita para ensaios do balé original, é bastante interessante. Se você estiver interessado, experimente a excelente execução de Benjamin Fritch e Peter Hill pela Naxos. Os acordes superpostos no coral Zvezdoliki (O Rei das Estrelas), composto pouco antes de A Sagração, são os precursores da ideia, mas nessa obra eles evocam uma imobilidade mágica e visionária. O fato de Stravinsky perceber que o mesmo artifício podia ser trabalhado exatamente no sentido oposto - o desencadeamento elementar do ritmo  foi um verdadeiro golpe de gênio.

Mesmo assim, esta foi uma daquelas revoluções que parecem ter iniciado e encerrado suas mais fortes possibilidades em uma única e surpreendente realização. Stravinsky poderia ter facilmente escrito para uma orquestra tão grande em suas obras posteriores, mas ele nunca o fez, e esta influente partitura, na verdade, tem pouquíssimos sucessores em sua obra ou nas de outros compositores. (Entre os cataclismas similares estão Amériques e Arcana de Varèse, a Tuarangalîla-symphonie de Messiaen e A Máscara de Orfeo de Birtwistle.) Pois esta é uma música que olha tanto para trás quanto para frente.

Mestre Rimsky-Korsakov
Apenas cerca da metade da obra é, na verdade, composta por ritmos explosivos e marcantes. Boa parte do resto é música exótica e evocativa, arrebatadoramente orquestrada e relacionada com o bruxuleante mundo sonoro do reverenciado mestre de Stravinsky, Rimsky-Korsakov.

Vários dos temas da Sagração, como o bizarro solo de fagote que abre a obra, baseiam-se em canções folclóricas, na época um recurso tido em alta estima entre os compositores russos. O título original de Stravinsky para A Sagração era Vesna Svyaschennaya, "Sacra Primavera", evocando algo essencialmente russo, o que fica claro desde o início de sua Introdução - uma colagem serpenteante e borbulhante de linhas musicais quase visivelmente evocativas, segundo Stravinsky, do "mais maravilhoso evento anual de minha infância... a violenta primavera russa que parecia começar em uma hora, e era como se toda a terra estivesse se fendendo".

Primavera Russa
Qualquer gravação de qualidade tem que expressar o máximo possível desses múltiplos componentes. Trata-se de uma tarefa difícil de ser cumprida e, além disso, o status d'A Sagração como um clássico que sempre vende significa que não pode deixar de ser gravada com muita frequência e rotineiramente. A maioria das versões se anulam justamente por essas razões. Das restantes, algumas das melhores estão inexplicavelmente fora de catálogo (por exemplo, Tilson Thomas e a Sinfônica de Bostom pela DG, ou a gravação de Monteux de 1951 pela CA), ou que pelo menos estavam quando fiz esta pesquisa (por exemplo Inbal e a Philarmonia, relançada). Mas lá vamos nós...

Aaaantes de entrar nas análises interpretativas, vamos entender melhor do que se trata a peça:

GUIA RÁPIDO D'A SAGRAÇÃO


De que se trata?
O sacrifício de uma jovem (a escolhida), em celebração ao advento da primavera numa Rússia pagã/antiga/étnica, que dança até a morte diante da tribo.

Como é mesmo??
Foi esse cenário que Stravinsky e Nicholas Roerich, pintor e arqueólogo, elaboraram para a última encomenda feita ao compositor pelos Balés Russos, a companhia de Diaghilev. Stravinsky estava interessado nas explosivas possibilidades dramáticas latentes na ideia. Ele também era jovem, determinado, tremendamente ambicioso e - como ficara claro nas estreias de O Pássaro de Fogo e Petruchka nas temporadas do Balé Russo de 1910 e 1911 - fantasticamente talentoso.

Por que toda a notoriedade?
Para começar, por causa da legendária reação da plateia presente à noite de estreia de A Sagração da Primavera. ("Exatamente o que eu queria", disse Diaghilev.) Subsequentemente e de maneira mais genuína, devido ao incrível poder de fogo rítmico da música, produzido pela maior orquestra para a qual Stravinsky jamais escreveu. Na verdade, a música ocidental nunca ouvira antes algo semelhante.

ANÁLISES INTERPRETATIVAS

Stravinsky: Estonteante
A gravação do próprio Stravinsky, feita em 1960, tem o brilho de uma revelação. Infelizmente houve boas razões para ela não ser a principal indicação da revista Classic CD, mas ela é nossa primeira opção. A qualidade sonora, embora razoavelmente clara e tridimensional para a época, não se compara às da era digital. A execução orquestral ignora detalhes hoje aceitos por todos ( Na Introdução, por exemplo, o corno inglês não consegue articular as graciosas notas em torvelinho com clareza.) No clímax da Dança do Sacrifício no final ouvimos o timpanista totalmente fora do tempo com relação a todo o resto da orquestra. É surpreendente que esta passagem não tenha sido corrigida. O resto é transcendental. Já na Introdução da Parte 1, temos uma flexibilidade do fraseado espontânea e, ao mesmo tempo, bem controlada, que seduz o ouvido. É admirável como Stravinsky consegue que os músicos individuais caracterizem o que estão executando: o trombone solo em Rondas Primaveris parece ter saído diretamente da História do Soldado, e os trompetes, diretamente de Petruchka. Algum elemento da perfeita articulação e da objetividade simples das Rondas Primaveris lança-nos em um mundo de estepes russas banhadas pelo sol de uma maneira tão vívida que quase podemos sentir o cheiro da relva. Até mesmo as complexas passagens são maravilhosamente claras, e não há qualquer economia no poder de fogo. Stravinsky incorpora suas próprias revisões de 1943 (não incluídas na partitura revisada e publicada em 1947, por ele sancionada e devidamente usada por outros regentes), A Dança do Sacrifício como foi registrada nesta gravação é um importantíssimo documento. E sua regência brilha com valores da produção musical de uma outra era. 

Boulez: Exemplar
Foi Pierre Boulez que, no Festival de Edimburgo de 1967, que regeu a mais excitante execução ao vivo de A Sagração que já ouvi falar, após a qual a resposta da plateia quase pôs abaixo o Usher Hall. Este disco dá uma ideia do porquê dessa reação. Realizada em 1969, é a primeira das duas gravações da obra que Boulez fez com a maravilhosa Orquestra de Cleveland, e suplanta a bela gravação posterior (1991, pela Deutsche Gramophon), à qual falta a mesma eletricidade. Ninguém mais deixa, quase literalmente, que a música fale ou se aproxime mais da descrição que Stravinsky fez do regente ideal: um sineiro na extremidade da corda. Se esta gravação é capaz de gerar entusiasmo - e ela sempre o faz -, é porque a música entusiasma. O controle de Boulez é um fenômeno. Um exemplo dele é a transição do Jogo do Rapto para Rondas Primaveris, a que ele aplica um toque de aceleração - suficiente para produzir uma resposta em toda a orquestra, tão espontânea quanto coletivamente exata. Nenhum outro regente que já ouvi executa a Dança do Sacrifício desta forma, com uma combinação surpreendente de controle sem pressa do andamento, ímpeto inexorável e grandeza monumental. Seu defeito é a quase total ausência de fenômenos atmosféricos. A maneira pela qual Boulez trata a Introdução da Parte II é bonita, mas se trata da beleza desconexa e contida de Ravel, e não a do mundo sonoro brilhante, evocador de Rimsky-Korsakov, do jovem Stravinsky. Mas, à sua maneira, esta é uma abordagem legítima da Sagração da Priavera e da reinvenção que Stravinsky fez de si mesmo como compositor com base na França. Uma gravação essencial, mas longe de definitiva. O fato de estar acoplada com Petruchka torna-a mais atraente.

Järvi: Chocante
Järvi trata A Sagração de modo a obter resultados bastante irregulares. Não há dúvida quanto ao nível virtuosístico de sua fluência e comando. O problema é o que ele faz com esse virtuosismo. Depois de os sopros da Suisse Romande terem demonstrado sua excelência na Introdução, Järvi atribui um andamento empolado aos Augúrios Primaveris, muito aquém da indicação metronômica de Stravinsky. No Jogo do Rapto, evidenciam-se um extravagante nível de decibéis e uma falta geral de preocupação para com o controle de todo e a clareza da textura. A Introdução da Parte II é tocada de maneira tão prosaica que boa parte dela soa como despretensiosa música de balé (o que ela é, mas não deveria soar assim). As deformações incluem um accelerando ao longo dos 11 acordes martelados que levam à Glorificação da Eleita, coisa não prescrita pela partitura. Vistos esses pontos fracos, o que resta para salvar a gravação? Duas grandes coisas. A qualidade visceral desta enorme obra para orquestra é um de seus traços essenciais, e o tremendo volume produzido por Järvi na Dança do Sacrifício, gravada (em 1994) com uma dinâmica coerente, está de acordo com essa visceralidade. Por outro lado, ele destaca em sua leitura a autêntica herança de Rimsky-Korsakov, aparente nas apaixonadas cordas cantantes do Jogo das Cidades Rivais e na adorável luminescência lírica das Rondas Primaveris. Também muito boa foi a escolha de Järvi das peças que completam o disco - três das maravilhosas obras tardias de Stravinsky, inclusive uma das maiores, o Requiem Canticles, todas maravilhosamente executadas. Talvez não seja a melhor Sagração de nossa seleção, mas seus complementos fazem dela a mais atraente.

Ancerl: Enérgico
Uma Sagração tcheca - portanto, deve ser interessante. Mas, por vezes, é também bizarra. Com a Orquestra Filarmônica Tcheca sob a regência de Karel Ancerl, os compassos introdutórios da Sagração da Primavera imediatamente definem o bizarro, com um efervecente solo de fagote acompanhado por uma segunda trompa cujo vibrato é tão amplo quanto o rio Moldávia ao passar por Praga. Mas o que se segue é tão convincente que o ouvinte logo se acostuma com as outras estranhezas - que é como elas soam, pelo menos aos ouvidos da Europa Ocidental - e com o som (bastante bom) registrado em 1964. O trabalho de Karel Ancerl com esta orquestra, a essa altura, já os tinham levado a um notável nível de atuação individual e coletiva. Na Parte I, encontramos um sentido alegre e ensolarado de balé autêntico, como nas Rondas Primaveris e há muito de ferocidade virtuosística quando a celebração fica séria na Parte II. Ao longo de toda a execução, a precisão dos ataques nos acordes é digna das maiores orquestras do mundo. O Cortejo do Sábio, acompanhado por tubas troantes e trompas brilhantes, é um espetacular ponto alto. Mas, então, temos o estranhíssimo andamento com que Ancerl trata a Evocação dos Ancestrais, com literalmente a metade da velocidade claramente indicada pela partitura. Um erro de impressão em sua cópia ou apenas uma leitura equivocada são as possíveis explicações. O efeito é, na verdade, bastante atraente, como se os dançarinos tivessem repentinamente começado a dançar a Sinfonia dos Salmos do compositor russo, mas não deixa de ser um defeito técnico. Não tenho muita certeza se essa objeção deve contar muito, pois todo o resto é de grande energia. Um disco fascinante.


Rattle: Excelente
A gravação de A Sagração da Primavera que Sir Simon Rattle realizou em 1980, depois de muita consideração de nossa parte, acabou por evidenciar-se por si mesma. Talvez porque existam dois tipos de regente seriamente talentosos: os que fingem eficiência e os que não o fazem. Rattle é um dos que não fingem. A incontestável qualidade desta gravação é ela oferecer, por um lado, boa parte da precisão non-sense de Pierre Boulez e, por outro, a expressividade de Järvi. Os sopros da CBSO (City of Birmingham Symphony Orchestra) saem-se muito bem no importante teste da Introdução, com uma clara qualidade sonora, se bem que não idealmente cheia e arredondada. Logo Rattle já está exibindo sua capacidade de moldar as efervescentes linhas líricas da Introdução com uma sutileza que Boulez jamais teria conseguido. Rattle é o único regente aqui listado a observar exatamente os andamentos prescritos por Stravinsky nas Rondas Primaveris, o que funciona de maneira soberba. Ele desembaraça os mais complexos emaranhados orquestrais de uma forma tão clara quanto a de Stravinsky. E seu tratamento a Dança do Sacrifício Final (comprove na audição comentada a seguir) mostra exatamente como se canaliza a força máxima da música sem precisar disparar com ela. Ainda acho que algo da atmosfera exótica da obra se mostra estranhamente ausente (especialmente na Introdução da Parte II). Afinal, esse é um balé com uma história. Nas mãos de Rattle, fica parecendo mais um abstrato Concerto para orquestra. Mas numa única gravação de uma obra-prima como a multifacetada Sagração da Primavera nunca se encontra tudo. Provavelmente, Rattle seja o melhor de nossa seleção. Com certeza, é o mais empenhado.



AUDIÇÃO COMENTADA
Parte II "A Dança do Sacrifício" - Simon Rattle


Na Dança do Sacrifício, no final da obra, uma jovem consagrada ao deus da primavera dança de forma frenética antes de se deixar morrer num auto-sacrifício. Apesar de todas as complexidades técnicas da música, aqui temos a forma simples de um Rondó dançante: ABACA

A. Uma flutuante clarinete baixo comanda a Ação ritual dos ancestrais, e a moça começa imediatamente a dançar - uma combinação de ritmos pesados e assimétricos (acotovelando-se em grupos irregulares de 2, 3 ou 4 batidas) e blocos de acordes estreitamente superpostos. Em 0:22 os tímpanos solos iniciam um motivo obsessivo e oscilante com duas notas. Em 0:30 temos um apêndice enérgico em fortíssimo.

B. (0:33) Cordas, fagotes e trompas pulsam calmamente, estabelecendo um acompanhamento que aguarda o surgimento de um tema. Quando este chega, é um estridente fortíssimo dos trombones (0:48) e trompetes. Em 1:58 os primeiros violinos acrescentam um tema ondulante a lá Scherezade, de inquestionável proveniência rimskyana. Ele é abruptamente interrompido por volta de...

A. (2:10) ... uma repetição da seção inicial, mas um semitom mais baixo (de modo que não soa exatamente como se esperaria.

C. (2:40) Irrompem tímpanos agitados e trombones que rosnam em glissandi, instigados por trompas e trompetes em fortíssimo. Um fragmento de melodia semifolclórica, ouvida pela primeira vez em 2:50, é tocado pelas trompas e predomina cada vez mais. A música de A é brevemente interrompida (3:17), então, a selvagem dança de C recomeça (3:26) com maior ferocidade.

A. (3:49) Uma variante do início do movimento retorna com tubas resfolegantes e trombones resmungões, aos quais logo se juntam os tímpanos (4:00). Em 4:15, o motivo do "apêndice" para toda a orquestra (ouvido pela primeira vez em 0:30) agora se transforma no material que propulsiona a música e a própria Eleita para um clímax sonoro devastador e (em 4:55) um paroxismo final.

VEJA!

VÍDEO - DANCE SACRALE - A escolhida dança até se entregar à morte


Baixe a Sagração da Primavera completa AQUI




ASSIM TERMINA A SERIE 50 OBRAS REVOLUCIONÁRIAS

domingo, 27 de fevereiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 2 - Tristão & Isolda - Wagner

Richard Wagner
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  • 2 - Tristão & Isolda (1865) - Wagner
Quando escreveu Tristão & Isolda, Wagner não tinha qualquer intenção de criar uma revolução musical. O fato de ele ter desenvolvido uma nova linguagem musical para o Tristão foi resultado de sua necessidade de expressar estados da alma de um tipo nunca antes descrito pela música ou pelo drama. O assunto do drama é a natureza da ânsia - intolerável, implacável - por um amor que só pode encontrar realização na morte. Ao contrário de outros famosos amantes operísticos, Tristão & Isolda não morrem porque as coisas dão errado. Eles estão completamente cientes de que o amor sentem um pelo outro é tão devastador que nada no mundo pode satisfazê-lo.


Para obter em sua música este senso de ânsia, Wagner criou, antes de mais nada, uma revolução na harmonia. Os primeiros compassos do Prelúdio já criam a atmosfera de tensão da qual parece impossível escapar. A primeira frase, violoncelos que se exaltam seguidos por acordes cuja resolução é ambígua - o famoso "acorde de Tristão" -, é repetido após um longo silêncio, com Wagner removendo qualquer fundamento sobre o qual possamos nos apoiar ou esperar qualquer eventual apoio. E assim ele avança pela obra, de modo que nós, como seus personagens, ficamos num constante estado de agitação e não realização.

O elemento mais influente do Tristão, que afetou quase toda a música ocidental subsequente, é sua harmonia. Mas nesta obra de desestabilização Wagner também usou outros meios. O ritmo tradicional praticamente desaparece, de modo que a relação entre música e drama, há muito estabelecida, acaba por dissolver-se. A paleta das cores orquestrais explorada é imensa, e muitos dos momentos mais prementes do drama são caracterizados pelos misteriosos sons de uma orquestra colossal, usados de maneira bizarra. A ampla orquestração de Wagner dá a impressão, nos momentos fundamentais, de que estamos nos desligando totalmente deste mundo.

Outro elemento decisivo é a escala em que o Tristão opera. Obras tão longas, ou quase tão longas, como muitas das óperas de Hendel, haviam sido escritas antes. O que torna o Tristão tão exaustivo e aparentemente tão abrangente é o fato de não existirem divisões em Árias, coros e assim por diante. Wagner via-se como sucessor de Shakespeare, e até certo ponto ele estava certo. Mas o Tristão é organizado de maneira muito mais coesa que qualquer peça de Shakespeare, ou qualquer obra em grande escala que o precedeu. Com seus extraordinários recursos de harmonia e matizes orquestrais, Wagner encerra-nos completamente no mundo de incrível intensidade dos amantes, de modo que ficamos inclinados, como eles, a sentir que nada fora do seu amor tem qualquer importância. É por isso que esta obra, elevando tão alto as ambições da arte, é de um fascínio interminável, tendo muitas vezes sido vista como realmente perigosa.

Influenciados: quase toda a música ocidental
Gravação recomendada: Reginald Goodall/Welsh National Opera (Decca)

Texto extraído da revista Classic CD, Nº 20


Veja aqui um trecho da encenação da ópera!

AUDIÇÃO COMENTADA
Ato 2, "O sink hernieder, Nacht der Liebe"

Este é o trecho central do dueto do Ato II. 00:00 Tristão leva Isolda à margem do regato coberta de folhas. 00:16 Ele canta: "Ó noite de amor, cai sobre nós", e Isolda se junta a ele; eles logo se exaltam, 02:25, cantando "libertando-nos do mundo", ao som de um acalanto das trompas. 03:28 Isolda canta: "Coração no coração, boca na boca", Tristão responde com: "unidos em um só hálito". O próximo e imenso clímax é iminente, à medida que os amantes agora cantam, 04:18, com extraordinária audácia: "Eu próprio sou o mundo; suprema alegria do ser, vida do amor mais sagrado", então eles mergulham temporariamente no "para nunca mais despertar, doce desejo".

Baixe  aquia ópera completa: Parte 1, Parte 2, Parte3

domingo, 20 de fevereiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 3 - Orfeo - Monteverdi

Claudio Monteverdi
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  • 3 - Orfeo (1607) - Monteverdi
Orfeo é uma ópera em cinco atos, composta para a Accademia degli Invaghiti de Mântua e apresentada pela primeira vez em 1607. Pouco se sabe sobre sua primeira execução, exceto que a assistência foi bastante pequena e íntima. Os antecessores da obra são o balé e os intermezzi da Renascença, que eram montados para os reis e nobres como elaborado entretenimento. Desta tradição, Monteverdi pode extrair uma grande orquestra, inclusive trombones para representar as cenas dos infernos. Orfeo é , do ponto de vista sonoro, a mais excitante de todas as óperas do século XVII, nunca tendo sido suplantada.

Orfeo e Eurídice - pintura de Rúbens (Renascimento)
De muitas formas, a ópera não parecia ser o campo ideal para revoluções, em vista de sua dependência com relação ao estilo madrigalesco, que era importante legado do século precedente. Na verdade, se Monteverdi estivesse disposto a romper com as convenções, teria eliminado os balés, as pastorais e os coros madrigalescos em favor do estilo monódico (uma voz com acompanhamento discreto, como um recitativo) da Eurídice de Peri, que precedeu o Orfeo. (O madrigal, enquanto gênero, logo entraria em declínio, e a paixão de Monteverdi por ele foi quase reacionária, apesar de suas incríveis inovações.)

Orfeo não tenta chamar nossa atenção para os personagens, como fariam obras posteriores nas quais o foco é a resposta do indivíduo às circunstâncias propícias ou adversas. Contudo, ao escolher um tema clássico, Monteverdi estava respondendo ao que era popular em sua época e estabelecendo a agenda para as numerosas óperas que se seguiram. Também há momentos de profundo caráter emotivo, principalmente quando a mensageira anuncia a morte de Eurídice, contada no novo estilo monódico com linhas vocais altamente expressivas e esparso acompanhamento (confira na audição comentada abaixo). Monteverdi foi uma figura básica na evolução desse estilo.

O fato de Monteverdi ter preferido imitar Peri é altamente significativo, pois as melhores revoluções musicais as vezes baseiam-se tanto na inovação conservadora quanto no no descarte do passado. Como Monteverdi criou uma ópera diversificada e cuidadosamente estruturada, de uma riqueza e de uma variedade musicais até então desconhecidas, o Orfeo sobreviveu, enquanto a obra de Peri, mais antiga, ficou reservada, em grande parte, ao interesse da musicologia. Orfeo é a primeira "ópera viável", como afirmou Denis Arnold (N.R. musicólogo inglês, professor de música e escritor), a primeira obra-prima de um gênero que floresceu desde então.

Influenciados: Toda a ópera desde então
Gravação recomendada: Nikolaus Harnoncourt e o Concertus Musicus Wien (Teldec)

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Texto extraído da revista Classic CD Nº 20


Orfeo - Início - Confira esta espetacular interpretação com direito a instrumentos e figurino da época!!

AUDIÇÃO COMENTADA
Trecho: Ato 2, "Tu se' morta"... "Sinfonia"


Orfeo cometeu seu erro fatal ao olhar para Eurídice enquanto saíam das regiões infernais, e ela aparentemente morre. Ele expressa sua dor numa das monodias mais comoventes e graciosas da música italiana do século XVII. "Tu estás morta, minha vida..." 01:02 Enquanto Orfeo canta sua inócua vitória sobre o "Rei das Sombras", a música torna-se intensamente cromática - Tristão parece morar ao lado. 02:03 Um coro de ninfas e pastores reflete sobre a inflexibilidade do destino. 03:12 A Mensageira canta a agonia de ser a portadora da terrível notícia. 04:30 Uma breve Sinfonia instrumental acrescenta mais tristeza à lúgubre cena.


Baixe aqui a ópera completa! Parte 1, Parte 2

domingo, 13 de fevereiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 4 - Sinfonia Nº 9 "Coral" - Beethoven

Ludwig Van Beethoven
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  • 4 - Sinfonia Nº 9 "Coral"Opus 125 (1824) - Beethoven
Grandes sinfonias haviam sido escritas antes da Nona de Beethoven, e outras deveriam surgir depois dela, mas nenhuma outra é maior que esta obra de uma iconoclastia devastadora, que rompeu com praticamente todas as convenções da época e cuja inflamada noção de que as obras musicais mais elevadas podem e devem enobrecer a humanidade nunca foi suplantada.

As próprias dimensões físicas da Nona sinfonia foram revolucionárias. Ela apresentava o dobro da duração de qualquer sinfonia anterior, e ampliava dramaticamente o tipo de tela sobre a qual os compositores clássicos anteriores haviam delineado suas obras. Schubert, Bruckner e Mahler foram todos se inspirar na radical definição bethoveniana do espaço e do tempo sinfônicos., bem como do tipo e da qualidade do material musical que uma sinfonia deve conter. A introdução de coro e solistas no final do quarto movimento foi outro lance de gênio. Ouvir a voz humana como executante principal em uma argumentação rigorosamente sinfônica foi um momento de revelação tipo "estrada de Damasco" para o jovem Wagner, o que afetou em muito suas teorias sobre o drama musical (em oposição à "ópera" convencional), levando a obras-primas posteriores como Die Meistersinger e O Anel. Mahler ficou similarmente encantado: é impossível imaginar sua arrebatada Sinfonia Ressurreição sem o exemplo pioneiro da Nona. Contudo, o mais importante é que a Nona foi a primeira sinfonia a lidar, direta e resolutamente, com os problemas existenciais básicos que subjazem à vida humana. A turbulência emocional e metafísica do Allegro inicial, o agitado Scherzo, o Adagio de uma beleza dolorosa, a busca cada vez mais desesperada de uma resolução que provoca o final, tudo isso leva à elaborada e imensa exaltação da transposição vocal que Beethoven fez da famosa Ode à Alegria de Schiller com que se encerra a obra. A mensagem que Beethoven quer passar é clara, além de particularmente comovente em vista das atormentadas circunstâncias de sua vida pessoal (surdez, depressão, tragédia familiar): apesar do sofrimento, apesar da miserável fragilidade da natureza humana, somos capazes de amar uns aos outros intensamente, e podemos, juntos, sobreviver gloriosamente.

Ainda somos capazes de levar a sério essa mensagem hoje? Talvez não, mas a Nona sinfonia é um ato de fé corajoso e permanentemente miraculoso: ela mudou para sempre os conceitos da função da música e continuará a oferecer esperança e inspiração à nossa complicada espécie.

Influenciados: Todo o repertório sinfônico austro-germânico
Gravação recomendada: Complete Symphonies com Arnold Schoemberg Choir; Chamber Orchestra of Europe/Nikolaus Harnouncourt (Teldec)

Texto extraído da revista Classic CD, nº 20


AUDIÇÃO COMENTADA
Beethoven - Sinfonia Nº 9 "Coral" - Finale, última parte


A Nona sinfonia de Beethoven conclui com os versos da Ode à Alegria de Schiller. 00:00 O coro lança uma grande invocação à humanidade: "Abraçai-vos, ó milhões! Que este beijo seja para o mundo todo!" 02:16 Leve galopar das cordas, à medida que a sensação de certeza e catarse iminente oferecida pela música caminha para a arrebatada apóstrofe da alegria em 03:06 et seq.: "Que todos os homens se tornem irmãos onde abrires tua asa gentil". 04:46 A música desloca-se do êxtase para o extremo arrebatamento, à medida que toda a extensão da visão que Beethoven tinha da humanidade é finalmente revelada em uma cacofonia de sons inspirados e triunfantes. (é de arrepiar!!!!)

Baixe aqui a Nona completa!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 5 - Sinfonia Nº 3 "Heroica" - Beethoven

Ludwig Van Beethoven
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  • 5 - Sinfonia Nº 3 "Heroica" (1803) - Beethoven
Alguns críticos assinalam 1803 como o ano em que o Romantismo (estilo musical) chegou à música, pois foi quando Beethoven escreveu a sinfonia Eroica. Descontada a estupidez de se dividir a história em pequenos compartimentos como este, a Eroica tem um significado simbólico como marcador do advento de um novo espírito em música, que dava ênfase ao indivíduo e representava sua luta contra os elementos.

A Eroica é profundamente inovadora em seu caráter assertivo e heroico. Sua Marcha Fúnebre fala de uma catástrofe de enormes proporções nunca dantes descrita em música - pelo menos não desta forma. Nada disto implica que Haydn e Mozart apresentavam escopos emocionais limitados; eles, sem dúvida, comandavam vastos horizontes expressivos. Em termos musicais, a Eroica foi uma expansão da sinfonia de várias formas. As extraordinárias dissonâncias do primeiro movimento possuem uma veemência e uma força antes não encontradas na música sinfônica. A estrutura do Finale também é nova, no sentido de que engloba um conjunto de variações dentro de uma rápida introdução e uma coda. Sua novidade musical, contudo, não deve ser exagerada. O primeiro movimento da Sinfonia Praga de Mozart é mais longo que o da Eroica, e como Beethoven, Haydn usou grandes orquestras quando teve a oportunidade. Falar do Finale alerta-nos para outro legado do enorme impacto da Eroica: o problema do Finale. O sentido de luta em termos musicais e expressivos deu muito peso ao Finale. Já vimos isto na Júpiter de Mozart (geralmente, Haydn e Mozart relaxavam um pouco em seus Finales), mas a Eroica levou o processo muito adiante, forçando os compositores a trabalharem cada vez mais seus últimos movimentos.

Influenciados: todo o repertório sinfônico austro-germânico.
Gravação recomendada: Günter Wand (BMG)

Texto extraído da revista Classic CD Nº 20


AUDIÇÃO COMENTADA
3º Movimento "Scherzo"

O Scherzo se inicia de maneira sinistra e ritmicamente ambígua, cheio de tensão. A onda finalmente se quebra em 00:45, quando o tema principal é apresentado em altos brados. 01:12 Depois de reiteradas permutas entre as cordas e as madeiras, Beethoven produz uma surpreendente textura com as cordas em tremolo. 02:32 O heroico tema da Eroica não é mais eloquente que quando exposto pelo Trio desta incrível obra. 05:09 o golpe de mestre de Beethoven, imprevisível e desafiante, ocorre quando ele, subitamente e de maneira chocante, transforma um arpeggio descendente no ritmo ternário prevalecente (1-2-3) em 4/4: um gesto de interrupção construído sobre a ambiguidade rítmica do início.

Baxe AQUI a Heroica completa!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 6 - Os últimos Quartetos para cordas - Beethoven

Ludwig Van Beethoven
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  • 6 - Os Últimos Quartetos para Cordas (1823-26) - Beethoven
Beethoven escreveu cinco grandes quartetos para cordas nos últimos anos de sua vida, obras tão audaciosamente avançadas e alheias aos procedimentos musicais tradicionais que, a princípio, foram vistas como impossíveis de serem executadas e ouvidas. O primeiro deles, em mi sustenido maior, Op. 127, apresenta os quatro movimentos usuais, mas é de uma escala muito maior que qualquer outro quarteto precedente, com enormes exigências para o ouvinte.

As três obras centrais são coleções de movimentos as vezes justapostos das maneiras mais incríveis, mas tendo em seu âmago a preocupação tardia de Beethoven de combinar a fuga com a sonata e, em geral, de conciliar os opostos. A fuga é uma forma em que um "tema" é tocado, sendo em seguida executado por outro registro, enquanto se desenvolve em direção a um clímax e uma conclusão quase geométrica. A sonata é uma forma ideal para se apresentarem e desenvolverem ideias em aparente oposição. No primeiro movimento do Quarteto em dó sustenido menor Op. 131, temos uma fuga que é também uma luta que não consegue se resolver; é o primeiro de uma feroz coleção de movimentos disparatados, que incluem um de enormes proporções e em variações. O Quarteto em si bemol maior Op. 131 originalmente terminava com a "Grande Fuga", com 16 minutos arrasadores e é tão audaciosa que até Beethoven comprometeu-se a escrever uma conclusão mais leve para substituir a original. O Quarteto em lá menor Op. 132 tem como centro um vasto movimento, não em uma tonalidade mas no modo antigo, em que perdemos nossos apoios musicais completamente.

Consideradas como um todo, estas são obras tão revolucionárias e poderosas quanto quaisquer outras obras musicais jamais escritas. Ignoradas durante longo tempo, foram admiradas por Wagner e produziram um efeito particularmente profundo nos maiores compositores de quartetos de cordas do século XX: Schoenberg, Bartók e Tippett.

Influenciados: Schoenberg, Bartók, Tippett
Gravação recomendada: Quarteto Italiano (Philips)

Texto extraído da revista Classic CD nº 20


AUDIÇÃO
Beethoven - Quarteto para cordas Op. 132

domingo, 23 de janeiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 7 - Prélude à l'après-midi d'un faune - Debussy

Claude Achilles Debussy
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  • 7 - Prélude à l'après-midi d'un faune (1895) - Debussy
Quando começou a música do século XX? Provavelmente em 1895, ano em que o Prélude de Debussy foi ouvido pela primeira vez. O compositor Gordon Jacob esteve presente à primeira execução na Inglaterra poucos anos depois. Ele lembra que, depois dos últimos compassos sonolentos e brilhantes, houve um silêncio total na platéia, que estava simplesmente perplexa demais para reagir de qualquer outra forma. Não se tratava tanto da impecável perfeição formal da obra, nem de sua admirável invocação do poema de Mallarmé ou de seu mundo sonoro único e ultrapessoal. O feito de Debussy fora conseguir articular uma nova percepção de como a música clássica ocidental podia realmente funcionar. O desenvolvimento do Prélude flui sem esforço, mas sua sensibilidade e abordagem técnica operam de forma muito diferente daquela da tradição clássica ou romântica. Suas frases sucedem-se de um modo cuja conexão é elíptica e não linear; embora se trate de música tonal, ela opera em uma tonalidade que se relaciona com as claves tradicionais de maneira estranha e sutil. Por exemplo, a frase sinuosa e flutuante tocada pela flauta e que inicia a obra é, a princípio, ouvida sem acompanhamento; depois, ouvimo-la de maneira idêntica, mas suavemente acompanhada pelas cordas da orquestra em ré maior; em seguida, tocada novamente de maneira idêntica, desta feita acompanhada em mi maior. Nenhuma versão soa mais definitiva ou imaginada de maneira menos bela que as outras. O jovem Debussy as vezes falava de seu apaixonado desejo de libertar a música das sufocantes convenções da tradição acadêmica. Seu Prélude mostrou exatamente o que ele queria dizer com isso.

Influenciados: quase todos os grandes compositores do século XX
Gravação recomendada: Jordan (Erato)

Texto extraído da revista Classic CD nº 20


AUDIÇÃO
Prélude - Debussy - conduzido por Boulez
Baixe AQUI!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 8 - Pélleas et Mélisande - Debussy

Claude Achilles Debussy
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  • 8 - Pélleas et Mélisande (1902) - Debussy
Pélleas é importante tanto pelo que é pelo que não é. Uma geração de compositores franceses de ópera, entre eles Chabrier, Chausson e Lalo, foi eclipsada por Wagner, produzindo mistos canhestros de sensibilidade francesa e épico alemão. Debussy, que fez a peregrinação a Bayreuth em 1888 e 1889, também sentiu essa atração, mas reagiu vigorosamente a ela, buscando uma forma diferente de expressão músico-dramática. Encontrou-a na atmosfera de sonho, "semifalada" da popular peça Maeterlinck. O resultado é, ao mesmo tempo, wagneriano e antiwagneriano. Wagner, como reconhecia o próprio Debussy, esvoaça constantemente pela textura musical inconsútil, com o ocasional leitmotif fragmentário, e nas cores orquestrais que delineiam a sombria floresta, os jardins, os calabouços, a luz súbita e o ar fresco à medida que Pélleas sobe a torre do castelo. Na ópera encontramos uma citação direta do Parsifal. Contudo, não existem herois épicos; o caráter é de silêncio e sonho, só brevemente luzindo com brilho ou energia. As palavras são musicadas de maneira simples, sem torrentes líricas titanescas, as vezes seguindo os ritmos da fala, embora indelevelmente fundidas com a música. A partitura é leve e translúcida, caracteristicamente fluida e não descritiva, com as harmonias fugidias e evasivas como a luz, cheias de escalas modais, acordes não resolvidos e dissonâncias sutis. Pélleas deriva dos movimentos simbolista e pré-rafaelista, mas, em termos musicais, lembra as técnicas impressionistas. Foi uma obra bastante apropriada para saudar o século XX, reconhecendo e rechaçando a sombra wagneriana e inaugurando maior liberdade estilística e um novo rumo para a ópera francesa; com ela, a ópera como um todo pôde-se desenvolver.

Influenciados: a ópera como um todo.
Gravação recomendada: Abbado (DG)

Texto extraído da revista Classic CD nº 20



Veja aqui um trecho da ópera!


AUDIÇÃO


Pélleas et Mélisande - CD 1 - Abbado


Baixe aqui Pélleas et Mélisande completo
Parte 1, Parte2

domingo, 9 de janeiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 9 - Das Wohltemperierte Klavier (O cravo bem temperado) - J.S. Bach

Johan Sebastian Bach
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  • 9 - Das Wohltemperierte Klavier - O cravo bem temperado (1722/1738-42) - J.S. Bach
JS Bach - o maior de todos?
Bach revolucionário? Sem dúvida, trata-se de algum engano! Os contemporâneos o rechaçaram como anacrônico. Em certo sentido, eles tinham razão. O futuro, parece, pertencia a seus filhos, em particular C.P.E. Bach. Contudo, em um sentido real, Das Wohltemperierte Klavier (O cravo bem temperado), completada em dois volumes em 1722 e 1742, foi uma obra revolucionária em seu conceito e notável em seu conteúdo (menos) revolucionário. Ela foi revolucionária porque ninguém tinha, até então, tentado utilizar de maneira sistemática todas as tonalidades do sistema diatônico, e o que Bach quis dizer com "bem temperado" deve ter sido uma afinação para instrumentos de teclado que não excluía nenhuma tonalidade, como havia feito o temperamento desigual. Algumas das peças certamente estão de acordo com as noções barrocas de como uma tonalidade deve se comportar - o brilho do ré maior ou a tragicidade do fá menor, por exemplo -, mas onde estava o precedente para, digamos, o até então obscuro dó sustenido maior? Se o "48" aponta para novos rumos, sua influência foi imensa em outros sentidos. Mendelssohn pode ter apresentado Bach ao público frequentador de concertos, mas os compositores, na verdade, nuca o haviam esquecido. Mozart aprendeu e digeriu a composição de fuga por ele propiciada, Beethoven recomendava o "48" aos pianistas iniciantes. Mendelssohn, é claro, tornou-se de amores por Bach (e graças a seu professor Zelter), e até o arqui-romântico Schumann tinha um retrato de Bach em cima do piano, enquanto Chopin pagou suas dívidas de adolescente ao mestre com seus próprios 24 prelúdios. No século XX, Rachmaninov também compôs um conjunto similar de 24 prelúdios, Chostakovich conseguiu proeza maior, ao compor 24 prelúdios e fugas!

Influenciados: Mozart, Beethoven e muitos outros
Gravação recomendada: Davitt Maroney (Harmonia Mundi)

Texto extraído da revista Classc CD nº 20


Mestre pianista Glenn Gould interpreta o Prelúdio e Fuga em A


Impressionante! Visualize através de gráficos as 4 vozes da fuga em dó maior!


AUDIÇÃO
O Cravo Bem Temperado - Os Primeiros Prelúdio e Fugas - com Daniel Chorzempa ao cravo




Baixe aqui a obra completa: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4

domingo, 2 de janeiro de 2011

50 Obras Revolucionárias - Nº 10 - Ionisation - Varèse

Edgar Varèse
Começou a contagem regressiva para conhecermos a obra musical mais revolucionária de todos os tempos!
A partir de agora as matérias terão mais conteúdo pra você!




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  • 10 - Ionisation (1929-31) - Varèse
Desde a controversa estreia de Ionisation no Carnegie Hall de Nova Iorque em 1931, compositores eruditos e/ou rivais questionaram seu status como primeira obra a ser escrita inteiramente para percussão. Contudo, 80 anos depois, ela continua a ser a irrefutável obra-prima de seu gênero, e muitos diriam (apesar das numerosas imitações), a única. Uma partitura exclusivamente para percussão era uma ideia que estava sendo amadurecida, visto que esta até então subdesenvolvida seção da orquestra começava a assumir vida própria no século XX.

Outro avanço importante havia sido Amériques do próprio Varèse, cujas nove elaboradas partes para percussão tocavam em paralelo e de maneira bastante independente do resto de uma enorme orquestra. Mas apesar de todo o radicalismo de sua concepção, as forças musicais de Ionisation são notavelmente clássicas. Seu único movimento de seis minutos é brilhantemente conciso, sem uma única nota a mais; existe um elemento reconhecível e convincente da forma tradicional da sonata em sua estrutura bem definida; e a decidida vivacidade da invenção rítmica de Varèse faz a música soar com tal frescor que parece ter sido escrita ontem.

Certa vez, um comentarista notou que o par de sirenes que zumbem absurdamente ao longo da música assume o papel, no contexto da altura (quase sempre) indefinida dos outros instrumentos, do par de trompas em um dos Divertimentos de Mozart para trompas e cordas. Isto é deliciosamente verdadeiro. E também é verdade que a obra sobrevive alegremente graças à legendária reputação de evocação do trânsito congestionado de Nova Iorque, a cidade de adoção de Varèse.

Influenciados: Obras subsequêntes para percussão
Gravação recomendada: OFNY/Boulez (Sony Classical)

Texto extraído da revista Classic CD nº 20


Confira Ionisation regida por Boulez


AUDIÇÃO
Ionisation - Varèse

Baixe AQUI Ionisation

domingo, 26 de dezembro de 2010

50 Obras Revolucionárias - Nº 11 - Quartetos para cordas Op. 33 - Haydn

Joseph Haydn
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  • 11 - Quartetos para cordas Opus 33 (1781)
Se Haydn foi o "pai" da sinfonia, ele deu, virtualmente, origem ao quarteto de cordas como o conhecemos. Foi ele quem, principalmente, fez todos os avanços importantes na composição de música de natureza sinfônica para quatro executantes de instrumentos de cordas, sem exigir um contínuo de teclado. Sem dúvida, seus primeiros quartetos ocasionalmente possuem uma ousadia orquestral de textura essencialmente estranha a esta forma mais íntima de expressão musical. Contudo, quando compôs seu conjunto de seis Quartetos Op. 33 (1781), que inclui os populares quartetos da "Piada" e do "Passarinho", ele já dominava a forma inteiramente nova de expressão de câmara que lhe permitiu produzir milagres infindáveis de imaginação musical, como num invejável número de prestidigitação. Mozart imediatamente produziu seis quartetos próprios, dedicados a Haydn em reconhecimento à sua contribuição, enquanto Beethoven, o antigo aluno de Haydn, subsequentemente levou o gênero a um inigualável clímax de expressão musical.

Influenciados: Mozart, Beethoven
Gravação recomendada: Mosaiques Quartet (Astrée Auvidis)

Texto extraído da revista Classic CD, Nº 20


AUDIÇÃO
Quarteto para cordas Nº1  Opus 33

Baixe AQUI todos os quartetos Op. 33


A PARTIR DA SEMANA QUE VEM ENTRAMOS NO TOP 10 OBRAS MAIS REVOLUCIONÁRIAS!!
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