Embora a maioria das sociedades africanas mantenham associações espirituais e culturais com a música dos tambores, o som da África contemporânea não é um dilúvio de batidas frenéticas. Como explica Ngraeme Ewens, é mais provável que ouçamos vocais espanhóis na música do Congo, letras e instrumentação árabes em Zanzibar, calipsos na África Ocidental e jazz ao piano na África do Sul...
A África contribui para o núcleo do que hoje é chamado de "World Music". Mas a música africana está longe de ser homogênea. O continente apresenta imensas diferenças geográficas, culturais e religiosas; mais de 2000 línguas são faladas, e a música as vezes tem funções específicas. Embora a música tradicional em geral seja confinada por fronteiras étnicas ou linguísticas, a música de dança social tem sido a única que permeia todas as culturas, constituindo-se em elemento universal do espírito africano. Ela não depende da transcrição e tampouco se presta a ela. Cada um de seus tipos constitui um sistema próprio, improvisado com parâmetros estritamente definidos.
Entretanto, existe uma crescente tendência a se criar uma música clássica ou artística em todo o continente. O intercâmbio cultural entre a África e a música religiosa da Europa do século XIV, os compositores ocidentais do século XIX e os músicos de jazz do século XX forneceu ligações históricas para compositores contemporâneos como o nigeriano Akin Euba e as colaborações como aquela entre I Fagiolini e o Coral SDSA. Compositores ocidentais de Holst a Steve Reich têm feito empréstimos junto ao banco cultural africano, enquanto grupos como o Soweto String Quartet têm agido de maneira recíproca, ao transporem a música tradicional para uma instrução ocidental.
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Akin Euba |
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Soweto String Quartet |
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A música africana sempre foi uma arte coletiva, envolvendo vários níveis de participação, das "convenções" dançantes do povo akan de Gana à vocalização polifônica dos pigmeus que tem deleitado os apaixonados por "música ambiental". O que mais se aproxima de um virtuose solista é o griot (historiador oral e cantor encomiástico), cuja interpretação altamente estilizada do mito e da história é as vezes acompanhada por espetaculares execuções instrumentais. Os mais acessíveis (em disco) são os de Sahel, uma região da África Ocidental, onde instrumentos como o kora, o ngoni e o balafon combinam melodia e ritmo em um formato de transição que também incorpora instrumentos e técnicas eletrônicos. Graças ao interesse dos europeus e um fluxo contínuo entre os países africanos, gravações de qualidade, provenientes do Senegal, Mali e Guiné, estão hoje disponíveis.
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Kora |
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Ngoni |
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Balafon |
Existem tantos estilos na África que o ouvinte casual não seria capaz de reconhecer a proveniência de algumas das músicas mais populares do continente. A explicação para isto pode estar na topologia e na vegetação que definem os instrumentos usados na música tradicional ou folclórica, na língua que estabelece o caráter e no legado dos antigos colonizadores. Estas influências produziram anomalias como os vocais espanhóis na música de dança do Congo, as letras e a instrumentação árabes em Zanzibar, os calipsos da África Ocidental e a música de piano jazzística da África do Sul. A influência da hinódia cristã também é evidente em muitos países.
Embora o ritmo constitua um acompanhamento essencial de muitos aspectos da vida rural, e embora a maioria das sociedades africanas mantenham associações espirituais/culturais com a música dos tambores, o som da África contemporânea não é um dilúvio de batidas no couro. Na verdade, o instrumento que conseguiu se impor em todo o continente a partir da década de 1950 foi a guitarra elétrica. Ela foi levada por músicos do Senegal à África do Sul, mas o estilo centro-africano prevaleceu. Boa parte da música de dança contemporânea deve muito à rumba cubana, que era ouvida em todo o continente em uma serie de discos de 78 rpm durante os anos 50. Junto com o calipso caribenho, a rumba deu sua contribuição ao estilo de vida da África Ocidental, embora a música "afro-cubana" do Congo tenha sido batizada de rumba "congolesa" (mais tarde, zairense).
Depois de 60 anos, o predomínio congoles no espectro pan-africano está em decadência e toda a cena está se redefinindo. Com a liberdade de selecionar influências, em vez de aceitá-las de maneira imposta, muitos africanos estão gerando novas formas de música para audiências globais, não confinadas pelas restrições locais e nacionais.
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Em destaque: O Grande Congo - hoje Zaire, Congo, Gabão, Guiné Equatorial, Camarões e África Central |
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DIVIRTA-SE
Zebra Crossing - Soweto String Quartet
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