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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rock 'n' Roll Celebration

2001


O pingo de suor descendo pela testa. As luzes batendo nos olhos. Um calor beirando o insuportável. O som alto, muito alto, estourando no peito e nos ouvidos. A sobrancelha não vai segurar esse maldito pingo de suor. Chii! Entrou no olho. Sal puro. E como arde!
E isso era felicidade no mais alto grau! 
Dessa forma é aberto o texto do encarte que acompanha este lançamento da Som Livre, um box com 3 CDs que reúne várias bandas que percorreram a noite paulistana animando bailes e clubes, durante as décadas de 60 e 70.

Eram os tempos das domingueiras, em que os conjuntos reinaram absolutos nos clubes de São Paulo(...) Nas ruas e nas garagens a meninada caprichava em suas tentativas de tirar as músicas dos Beatles, Animals, Rolling Stones...
 Alguns, porém, acabaram atingindo um grau de musicalidade, de "profissionalismo", que os levou aos palcos do Pinheiros, Harmonia, Ypiranga, Tênis, Tietê, Espéria, Palmeiras, Vila Mariana, Banespa, Ypê, Clube Inglês, Sírio, Monte Líbano e ao templo máximo da moçada: o Círculo Militar.
As bandas Lee Jackson, Watt 69, Memphis (ex do Wander Taffo), Kompha e Sunday foram convidadas em 2000 para participarem de  um show no Pinheiros para relembrar os velhos tempos - claro que tudo foi gravado!

Lee Jackson
Memphis
Watt 69
O material é composto por covers de grandes clássicos como Jump, Smoke on the Water, Jumpin' Jack Flash e muitos outros que animavam os bailes.

As gravações foram honestas, ou seja, nada de overdubs, Pro-Tools ou outros recursos para maquiar erros, portanto não é incomum perceber alguns deslizes na afinação, métrica ou técnica, mas a animação é grande e a plateia também colabora. É um grande show registrado pela Som Livre - o que é curioso, pois a Globo dificilmente apóia bandas desconhecidas. Vale destacar o belo encarte com textos de Pedro Autran com a descrição do movimento, histórico de cada uma das bandas, seus legados, ficha técnica completa e todas as letras.

O box está fora de catálogo, só dá para encontrar em sebos, foi difícil até localizar a capa na Internet para poder postar aqui (quase que precisei scanear o meu exemplar!)

Para finalizar, transcrevo mais um trecho do belo texto de Pedro Autran:

Ufa! Esse pingo de suor correndo pelas costas tá incomodando. E ainda tem três amplificadores pra botar na kombi. Mas eu tô feliz. O conjunto arrasou hoje. E aquela menina morena não parou de olhar pra mim. Um dia, a gente ainda vai ter quem carregue os instrumentos pra nós. Mas hoje não tem importância. Até esse pingo de suor tá legal!
Enjoy!  

Ouça aquio box completo!
Lee Jackson: Faixas - 1,2,22,23,46,47 e 48
Watt 69: Faixas - 3,4,5,30,31, 39 e 40
Memphis: Faixas - 6,7,24,25,26,32,37 e 38
Sunday: Faixas - 11,12,13,14,15,16,17,18,19,20,21,41,42 e 43
Kompha: Faixas - 7,8,9,10,27,28,29,33,34,35,36

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Luzia - Paco de Lucía

1998

Paco de Lucía é um dos maiores mestres do violão. Seu trabalho como compositor e intérprete é reconhecido em todo o mundo. Aprendeu a tocar o instrumento com seu pai dentro da tradição cigana e contribuiu enormemente para o desenvolvimento do flamenco, trazendo uma visão moderna para esse estilo musical.

Luzia é um dos trabalhos mais sensíveis e artísticos do artista espanhol. Leia abaixo o que diz o crítico musical especializado em flamenco, Félix Grande, sobre esse disco e sua comparação com o álbum anterior, Sirocco. O texto está encartado no CD e a tradução é livre.

Cada gravação de Paco de Lucía é um acontecimento por si só. Cada novo projeto é uma surpresa. E este é algo mais: Luzia é inacreditável; deixa-nos esgotados e espantados. Todos têm limitações, até os gênios. Por anos pensei que o gênio de Paco de Lucía havia atingido seu máximo com o álbum Sirocco. Não foi assim. Em Luzia, as músicas são mais profundas, mais expressivas e muito mais flamencas nessa gravação memorável. Sirocco foi o trabalho de um artista tempestuoso; Luzia é o trabalho de um artista com pleno comando do poder da serenidade, solidão e tristeza. Sirocco nos levou a alegria e lágrimas; Luzia nos mostrou como descobrir tristeza na alegria, e nos ensinou o conforto das lágrimas. Sirocco foi composto por um mestre da criatividade no flamenco; Luzia foi escrito por um ser humano ciente de sua mortalidade; Em Sirocco a música estabelecia um diálogo com a história da Andaluzia; em Luzia há também um diálogo com o terror do nosso tempo de vida finito. Sirocco é um tour de force. Luzia é a culminação. Na gravação de 1981, Solo Quiero Caminar, havia uma faixa, Montiño, onde uma silenciosa aliança foi estabelecida entre o som, ritmo e o mistério, uma espécie de confissão, onde a música tinha o peso pesado da levitação; emoção que sutilmente nos moveu em Sirocco; Em Luzia esta gramática emocional tornou-se a regra predominante.
A técnica de Paco de Lucía ainda é surpreendente, mas se comunica com intimidade pura agora. Sua habilidade cresceu para dentro; ela não apenas engrandece o próprio artista, mas sim evoca emoções radicais. A técnica de Paco de Lucía talvez possa ter parecido arrogante no passado; em Luzia ele se tornou nosso irmão. Sua técnica prodigiosa não pretende mais surpreender; ela tem uma meta ainda mais ambiciosa: nos conduzir pela mão ao âmago do flamenco, e para o âmago de nossas próprias vidas. Na outra gravação de Paco de Lucía nós compartilhamos uma celebração; agora nós assistimos uma cerimônia. Fomos enriquecidos. Estamos habituados a ouvir sua música a partir da incerteza da nossa curta e fugaz vida; em Luzia ouvimos a música flamenca do reino enigmático dos nossos antepassados. Esta gravação nos ajuda a rememorar e se apossar de nossa antiga história. E, portanto, torná-la mais duradoura.
 Agora a arquitetura harmônica não é apenas rica; está determinada a ser essencial, as harmonias não estão meramente conectadas às melodias. Elas estão intrinsicamente ligadas para gerar densidades adicionais. As escalas não seguem as tonalidades comuns, elas transbordam no fraseado; não é exibicionismo, é mais uma prestação de serviço. Seus acordes, que costumam ser a prova da incrível destreza de sua mão esquerda, agora refletem as ansiedades da música, os símbolos de um flamenco erótico. E quanto ao ritmo, espinha-dorsal de sua música, nessa gravação é mais do que um suporte estrutural: é um ritmo que conduz a música do passado para o futuro. Paco de Lucía vivia para seu ritmo, agora o ritmo vive nele: Luzia, música escrita com incendiária coerência, não é apenas o máximo da técnica do flamenco; é um marco na história da música contemporânea. Finalmente: Luzia é também absolutamente um gesto típico do povo flamenco realizado por Paco de Lucía: é um tributo feito para sua mãe.
Depois das grandes palavras escritas por este profundo conhecedor da música flamenca, o que mais eu poderia dizer? Apenas desejo que o caro leitor aproveite ao máximo esta obra suprema do mestre Paco de Lucía!

Ouça aqui o disco completo!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Primeiro Canto - Dulce Pontes


1999


Meu primeiro contato com esta fenomenal cantora se deu em meados do ano de 1998. Nesta época, eu e minha esposa éramos proprietários de uma humilde escola de música na ensolarada e bela cidade praiana de Itanhaém. Vivíamos um para o outro, para nossa filhinha recém-nascida e para a música. Só por isso Dulce Pontes, por resgatar as memórias dessa deliciosa época, já tem seu lugar em meu coração.

As Duas Faces de um Crime
Edward Norton
Mas engana-se quem pensa que postei esse disco hoje apenas por razões sentimentais! Retomando a história de minha descoberta musical, assistia eu uma fita VHS (DVD nessa época era só para os muito ricos) do filme 'As Duas Faces de um Crime', estrelado por Richard Gere, e que apresentou para o mundo o ótimo ator Edward Norton. No meio do filme surge a 'Canção do Mar', a bela melodia imediatamente despertou meu interesse. Ao final do filme, enquanto subiam os créditos, acompanhei com atenção para ver o nome da dona daquela voz excepcional, até que ele surgiu: Dulce Pontes!

Encurtando a história, não consegui nenhuma informação sobre ela até que descobri tratar-se de uma cantora portuguesa e tive que importar este bendito disco dela pagando os olhos-da-cara. Detalhe: não tinha a tal 'Canção do Mar'!

Um pouco indignado, comecei a ouvir o disco e já fui pego logo na primeira música: 'Alma Guerreira', que representa o fogo neste trabalho "elemental" da diva, é de uma beleza ímpar. Fiquei impressionado com o brilho e a delicadeza quase divinos da voz de Dulce. O arranjo todo feito para instrumentos acústicos e orquestrais. O clímax é de arrepiar! Precedido de um suspense gerado pela orquestra, seguido de uma crescente em vibratos da soprano que explodem com todo seu poder! Sua voz vai literalmente às alturas e com um vigor que preenche todo o recinto. Espetacular! Após ouvir umas dez vezes é que passei à faixa seguinte.

Fado-Mãe é uma homenagem delicada ao estilo musical típico português, cantado à moda lusitana, rica em melismas de influência moura; o acompanhamento é feito com instrumentos étnicos e a interpretação é soberba. Uma obra de arte.

Tirioni é uma espécie de "música de trabalho", algo equivalente ao canto dos colhedores de algodão dos EUA ou das lavadoras de roupas dos rios brasileiros. Repare como é inusitada a métrica em comparação com a melodia. O arranjo é entremeado de silêncios, simples e belo.

O Primeiro Canto trás alegria. Canta também as tradições do povo trabalhador do campo. Destaco o trabalho exímio do saxofone soprano que contracanta Dulce. Diversas variações rítmicas enriquecem a peça e a cantora mostra extrema competência. Aqui ela fala por seu povo!

Modinha das Saias é uma curiosa e curta obra à quatro vozes que conta com a participação da cantora Maria João. A aparente simplicidade oculta a complexidade extrema das vozes. É alegre, assim como Pátio dos Amores.

Garça Perdida é um singelo poema emotivo. Mostra como Dulce Pontes pode certamente figurar entre as melhores cantoras do mundo. A faixa consegue se destacar no álbum, mesmo estando entre as outras músicas de evidente teor artístico.

Velha Chica, Suíte da Terra e É Tão Grande o Alentejo são músicas mais difíceis, não no sentido técnico, mas estilístico. Há um grande choque cultural que faz com que a apreciação seja mais complicada para os ouvidos de alguém que não seja português, valem como curiosidade.

O Que For Há de Ser, Ai Solidom e Porto de Máguas trazem uma sofrida melancolia típica do fado e as interpretações são pouco ortodoxas, mas riquíssimas.

O álbum é fechado com a extraordinária Ondeia. A música praticamente não tem letra, são vocalizes e variações da palavra que dá nome a faixa. Dulce é excepcional, o que ela faz nessa música é um assombro! Sem dúvida, uma filha legítima de Apolo ou de Santa Cecília. É impossível passar incólume por essa faixa, a carga emocional é gigantesca.

No encarte do CD vem todas as letras (só assim para entender o que ela fala, rsss).

Ouça abaixo esta obra-prima!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

The Trio


1970


John Surman
Há alguns anos, enquanto fuçava uma loja de CDs na distante Ivoty (RS), achei esse disco de capa minimalista e pedi para o vendedor deixar eu ouvi-lo. Quando apertei o play e veio a música Oh, Dear começando com aquela quebradeira de bateria, pensei imediatamente que estava diante de algo diferente. Em seguida surge o tema executado por um incomum saxofone barítono que começava em suspense e depois abria um solo improvisado frenético - pirei! Quis levar o disco mas o preço não tinha graça... Meses depois, soube que haveria uma feira de CDs no shopping da cidade de Novo Hamburgo (RS), oportunidade perfeita para garimpar algumas preciosidades, fui e dei de cara com essa gravação: importado (britânico), duplo e incomum, perguntei o preço ao vendedor e fiquei surpreso com a resposta: R$ 5,00, levei na hora!

Barre Phillips
O Trio é formado pelo saxofonista John Surman, compositor e adepto do Free Jazz (aquele que não segue uma tonalidade definida e que os músicos solam ao mesmo tempo) e do Jazz Modal (onde as composições são escritas baseadas nas escalas gregorianas - modos), pelo baixista Barre Phillips e pelo baterista Stu Martin, ambos nomes relevantes do cenário jazzístico europeu.

Para ouvidos iniciantes, a audição pode chocar pois a impressão é que três caras, totalmente drogados, entraram em um estúdio e deram vazão a todos os seus desvarios... Se estavam drogados enquanto gravavam eu não posso afirmar, mas ouvindo com atenção, percebi que os instrumentistas exploraram com um virtuosismo alucinante toda a lógica do free jazz e do modal, utilizando toda a extensão de seus instrumentos e indo além, ou seja, tirando sons improváveis! Conceitos melódicos e rítmicos são destruídos e depois reconstruídos criando um experimentalismo impactante.

Stu Martin
John Surman utiliza uma variedade de madeiras que vão do sax barítono ao soprano, passando pelo clarinete grave. Phillips utiliza seu baixo acústico de maneira pizzicatta, com o arco e até percussivamente, enquanto Stu improvisa uma infinidade de viradas loucas em sua bateria.

A banda acabou em 1971, mas seus integrantes seguiram contribuindo para o enriquecimento do jazz tocando com inúmeros nomes consagrados e gravando discos solo.

Um disco para curiosos e vanguardistas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Show - Ná Ozzetti

2001


Ná Ozzetti vem de uma família de músicos e desde pequena estuda piano, canto e teoria musical. No final da década de 1980, passou a frequentar o circuito paulista de casas de espetáculos como crooner, mas só foi se destacar mesmo ao ganhar o Prêmio Sharp de revelação feminina da MPB.

Em um país que não tem uma escola de cantores técnicos e que prioriza a interpretação quase empírica das ricas composições brasileiras, Ná Ozzetti se destaca associando esta herança cultural interpretativa a uma vasta técnica, um timbre de voz brilhante e exuberante, com uma extensão vocal voltada para o agudo que impressiona. É a cantora perfeita.

O disco Show, lançado pela gravadora Som Livre (Globo), foi uma espécie de prêmio que ela conquistou por ter ganhado (como melhor intéprete) o último Festival da Música Brasileira de 2000 - uma vã tentativa da rede Globo de resgatar os históricos festivais das décadas de 60, 70 e 80, que revelaram tanta gente boa.

O álbum é fruto da criteriosa pesquisa de repertório realizada pela própria Ná e com o auxílio do excelente músico Fábio Tagliaferri. Inclui diversas músicas do período pré-bossa nova como Dorival Caymmi, Dolores Duran, Ary Barroso, Noel Rosa; e algumas posteriores ao advento da bossa nova, como Maysa, Tom Jobim, Herivelto Martins, mas que mantém o mesmo clima das composições mais antigas.

O clima é de melancolia, que fica mais acentuada pela delicadeza dos arranjos feitos apenas para instrumentos acústicos - violão e violoncelo basicamente - que emolduram a belíssima voz de Ná.

A música título é um caso a parte. Primeiro porque é a única composição recente, e segundo porque foi a canção responsável pelo prêmio de melhor intérprete ganho no último festival da Globo (aliás, uma das poucas coisas boas que se salvaram daquele fiasco). Show é de uma complexidade técnica absurda, a quantidade de vezes que ela modula é de deixar qualquer intérprete mediano perdidinho. O acompanhamento de violão, violão 7 cordas e violoncelo não dão nenhuma deixa para a cantora, que prova toda sua técnica e tessitura vocal nessa incrível faixa.

Ouça o disco abaixo, certamente ele fará o caro leitor concordar comigo que Ná Ozzetti, seguramente é uma das melhores cantoras desse nosso Brasil!


Saiba mais sobre Ná Ozzetti em seu site oficial: http://naozzetti.com.br/ Ele trás a biografia, discografia e alguns de seus vídeos. Conheça também sua página no MySpace: http://www.myspace.com/naozzetti NÃO PERCA SEUS SHOWS!!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Introdução às novas séries do blog


A intenção dessa série é apresentar os diversos gêneros, sub-gêneros e estilos musicais de uma forma clara e objetiva.

A idéia é passar informações através de infográficos auto-explicativos que indicam como foi formado o gênero, quando, onde, quais os instrumentos típicos, principais bandas, estilos derivados e disponibilizar uma playlist coletânea com algumas músicas do estilo musical tratado.

Todas as segundas-feiras!






Sou um colecionador de CDs, DVDs, VHS, LPs. Costumo frequentar os sebos por todas as cidades que passo em busca de "raridades" e também aproveito para garimpar as promoções das grandes redes de lojas. É muito comum achar verdadeiras preciosidades a preços módicos, e não perco a chance de adquiri-las.

Por tudo isso, possuo hoje um grande acervo de originais que passo a compartilhar com você caro leitor. Cada postagem dessa série apresentará um álbum original que possuo com todas as faixas disponibilizadas para ouvir e comentários.

Todas as quartas-feiras!


Em breve enviarei um e-mail com maiores informações para os seguidores que são assinantes do nosso boletim quinzenal informativo. (Para assinar é fácil, basta clicar no link do boletim informativo abaixo do painel de seguidores. Se você ainda não é seguidor, basta começar a seguir que sua inscrição se dará de forma automática!)

Conto com sua participação através dos comentários, Cbox ou e-mails, e até a próxima postagem!

Abraços!

Rodrigo Nogueira
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